quarta-feira, 8 de junho de 2011

2º trecho do novo livro...

Bem como o prometido, mais um trechinho do novo livro... Depois me digam o que acharam ok?

" A porta de entrada estava meio deteriorada pela erosão do tempo, mas por ser de boa qualidade estava muito firme e impossível arrombá-la para entrar... O que fazer? Como entrar? Nisto começou a chover uma garoa fina, gelada, constante.

“Não posso ficar aqui do lado de fora, preciso entrar e esperar o dia amanhecer, só assim conseguirei voltar para minha casa”. Deu a volta por trás da casa, o contato de seus pés com a lama e a relva era muito ruim, o pé atolava nas pequenas poças e entrava debaixo das unhas, produzia um som estranho quando passava por cima do canteiro, parecia que era oco por baixo, mas ela achou melhor não pensar muito neste assunto...

Encontrou uma janela bem afastada e um pouco mais alta que as demais, conseguiu quebrar o vidro e entrar por ela se agarrando a trepadeira que havia próxima, ela subiu pela trepadeira, andou agachada e escorregando pelo beiral entrou na janela, um percurso arriscado, mas que valeu muito a pena.

Esperou seus olhos acostumarem com a escuridão, depois, andou devagar e apalpando as paredes para ver se encontrava um interruptor. Finalmente o encontrou, mas a energia da casa parecia estar cortada... Que pena... Então, começou a procurar a caixa de força, quem sabe o disjuntor não estaria apenas desligado? Naquele andar não o encontrou, não queria se arriscar e descer até o porão, com certeza aquela casa deveria ter um, achou melhor se focar em tampar o arrombo que fizera na janela, alguém poderia entra por ali... Encontrou bem próximo uma cristaleira bem pesada e a empurrou até a janela, fechando por completo a passagem que fizera. As janelas mais baixas todas possuíam grades, então não precisaria preocupar-se.

Notou que na lareira havia algumas lascas de madeira e pensou em acendê-las, primeiro precisaria verificar se a chaminé não estaria obstruída, se intoxicar com fumaça era a última coisa que queria. Em cima da lareira havia um vaso no qual havia caixas de fósforos e isqueiros. Conseguiu uma pequena labareda e miraculosamente notou que a chaminé não estava entupida. Usou um atiçador para aumentar as labaredas e conseguiu um fogo forte e vigoroso.

Sentou-se no chão sobre uma pele de urso que havia, deixou-se deslizar pelo quente e macio, esticou os pés próximos a lareira e sentiu o calor invadir-lhe em cheio, primeiro pelos pés e depois foi subindo até sentir chegar às orelhas. Uma sensação deliciosa!

O calor estava tão bom que Miranda acabou pegando no sono. Deve ter dormido poucos minutos, acordou com um barulho ali mesmo na enorme sala, barulhos de passos, levantou-se sobressaltada, os olhos quase saltando das órbitas, o coração saindo pela boca, mas para sua satisfação não havia ninguém ali além dela, que sensação esquisita “Deve ter sido o sonho” pensou, acomodou-se novamente na pele de urso e fechou os olhos.

Tentou dormir, mas não conseguiu, sentia como se alguém olhasse para ela o tempo todo. O brilho das chamas na lareira enchia todo o ambiente com uma luz aconchegante, acolhedora e quente. A sala toda estava iluminada e podia observar todas as sombras sem medo, de tanta claridade que o ambiente dispunha.

Deitou-se do outro lado e fechou os olhos novamente, quando estava quase pegando no sono novamente sentiu um vento frio e persistente assoprar-lhe a orelha, colocou a cauda do urso na orelha e novamente o vento continuou, desta vez em seu nariz. Parecia que havia alguma fresta onde entrava o vento, só que o vento não era gelado como o que soprava lá fora, era um vento frio e maciço, muito estranho parecia que acariciava seu nariz e não simplesmente batia nele. Sentiu também como se este mesmo vento entrasse por baixo da pele de urso e acariciasse suas pernas, como Miranda estava com os olhos fechados parecia que estava recebendo carinho de alguém, de repente estancou, como podia ser isso? Olhou aterrorizada para aquelas mãos invisíveis que teimavam em acariciá-la, ali no meio da pele de urso ela olhava boquiaberta para suas pernas e não via absolutamente nada, mas a sensação estava ali presente. Incrível! Quase gritou, mas estava tão abalada que sua voz recusou-se a sair. “Meu Deus, só pode ser assombração... Ou, minha imaginação”. Levantou-se e ao fazer este movimento percebeu que aquilo que a acariciava parou. Meio trêmula, ajoelhou-se mais próxima do fogo e colocando a grade de proteção na lareira, fechou os olhos. Queria ver se sentia novamente aquela sensação, mas o que sentia no momento era um formigamento como se uma corrente elétrica passasse por todo o seu corpo. Escutou o crepitar do fogo na lenha que queimava e ardia liberando um cheiro de eucalipto, isso a madeira era de eucalipto, delicioso este cheirinho.

Ficou assim imóvel por um bom tempo, se estivesse olhando em um relógio poderia dizer que ficou assim por no mínimo 20 minutos, mas a sensação das carícias não voltou e o formigamento foi sumindo aos poucos. Meio desolada estava com medo de dormir e acordar sabe-se lá como, então para não pegar no sono abriu sua bolsa para ver se continuava ler o livro que havia comprado fazia pouco tempo, começou a folheá-lo até a página onde estava marcado e parou abruptamente fechando-o em seguida e guardando novamente dentro de sua bolsa. “Não, definitivamente este não era o momento para ler uma história de terror!”.

Encontrou algumas guloseimas em sua bolsa. Um pacote de bolacha recheada de chocolate, um sanduíche de peito de frango desfiado que havia comprado no almoço para comer no lanche da tarde e que esquecera e um iogurte de morango. Ficou com o rosto iluminado de alegria, isto era uma ceia e tanto. Agora podia comer, escovar os dentes e deitar novamente na pele de urso para dormir.

O vento zunia alto lá fora, as árvores eram balançadas por ele e uma garoa fina começava a cair tingindo a natureza com tons mortiços.
Era uma linda manhã e de repente transformou-se em uma manhã horrenda, cheirando a morte e devastação.
Nada podia ser mais perfeito para a cena daquela tarde início de noite, o ar gélido, a leve neblina, as ruas molhadas, poucas pessoas a andarem apressadas por vielas escuras e um murmurinho abafado de despedida em cada esquina.

Na casa a atmosfera era tranqüila, silenciosa, parecia que todos dormiam se é que havia alguém mais na casa.
Do banheiro vinha apenas o som da água do chuveiro caindo ininterrupta no piso. Nenhuma vivalma fazia o menor ruído naquele lugar, dava até um arrepio na espinha só de imaginar o que todo aquele silêncio poderia representar...
Pavor? Insegurança? Medo do desconhecido?

Não, naquele momento Miranda não sabia explicar a sensação que sentia naquela manhã, mas percebia que não era uma sensação clássica, pressentia que algo muito ruim iria acontecer, mas não conseguia coligar o que poderia ser.

Saiu do chuveiro com a toalha envolta na cabeça e o roupão rosa felpudo que ganhara de natal no amigo secreto do escritório. Separou a roupa que usaria um costume preto de saia lápis até abaixo dos joelhos, a camisa branca e bem engomada que estava por baixo ficava perfeita com aquela saia, a meia fina preta e o scarpin igualmente preto completavam o visual, estava sentindo-se mais que perfeita naquela manhã fria de início de outono. Por cima colocou um Trench Coat, secou os cabelos e fez um coque, a maquiagem daquela manhã foi em tons de marrom e dourado para os olhos e um blush meio marrom nas maçãs do rosto, o batom foi um em tom de boca mesmo e opaco. Passou o seu perfume preferido, brincos de pérola compunham um elegante e sofisticado figurino. A bolsa grande e de couro guardava todos os seus apetrechos, estava pronta para ir trabalhar.

Logo ao sair de casa tropeçou em uma pedra enorme e quase não raspou o bico do sapato “Hoje pelo jeito não será um dia fácil, sinto algo no ar... O que será?”
Chegou ao serviço no horário de sempre, arrumou suas coisas e tomou seu leite com caramelo, delicioso!
O dia transcorreu como de costume, por diversas vezes sentiu que a observavam, mas isso era impossível, estava em sua sala e a porta estava fechada, mas a sensação persistiu na parte da tarde inteira.

Ficou até mais tarde, terminou de arrumar uns arquivos que estavam meio bagunçados, depois imprimiu alguns relatórios, preparou a pauta da reunião da manhã seguinte e foi até a cozinha tomar uma xícara de chá antes de arrumar suas coisas para voltar para casa. Fazia muito frio naquele início de tarde, o crepúsculo estava lindo, o céu ganhando tons arroxeados e azul-marinho. Deixou-se ficar com a xícara nas mãos mesmo depois de terminado o chá. Olhava absorta pela janela aberta, o vento balançava a cortina com força e enchia o cômodo com o cheiro das “Damas da noite”. Miranda lavou sua xícara e secando-a guardou no armário. Findo, já estava pronta para voltar aos seus afazeres e ir para a casa tomar um agradável banho.

Estava apagando as luzes para voltar para sua sala quando de relance, com o canto dos olhos teve a impressão de ver algo se esgueirar por trás das mesas no corredor. Parou meio distraída e pensou que fosse um gato, mas de repente arrepiou-se, o que um gato estaria fazendo ali àquela hora? Sozinho? Como isso poderia acontecer?

Balançou a cabeça pra espantar os maus pensamentos e continuou seu caminho, chegou a sua sala, terminou de fazer algumas coisas, arrumou sua bolsa e saiu trancando a porta da frente sem nem ao menos olhar para trás.

O vento bateu em cheio em seu rosto, fazendo-a abotoar seu Trench Coat. A rua estava deserta e uma neblina espessa pairava acima dos postes de iluminação. Miranda apertou o passo, só se escutava o som de seus saltos, nunca notara como era comprida aquela rua e não fazia idéia de como era escura e deserta depois das 20:00h. Sentiu um leve tremor e como se de repente tudo ficasse mais escuro, sombrio e assustador. Nunca tivera medo de escuro, mas naquele momento sentia não só aversão, mas terror e espanto. Estava completamente aterrorizada e nem sabia por qual motivo.

Por incrível que pareça não havia ninguém na rua, virou a esquina e encontrou alguns rapazes fumando em uma roda, sorriam e bebiam, Miranda atravessou a rua e continuou seu caminho, mais a frente encontrou um casal de namorados brigando, passaram por ela gritando os palavrões mais cabeludos e que ela não ousaria repetí-los nunca em sua vida. Ao passar por eles o cara simplesmente deu um safanão no braço da moça e arrastando-a pela rua empurrou-a, horrorizada ela gritou com ele e na esquina cada um foi para um lado.

“Mundo de malucos” pensou Miranda apertando mais ainda o passo, queria sair o mais rápido possível daquela rua e chegar logo até a avenida, lá era mais iluminado, mais movimentado e estaria bem próximo ao metrô caso sua condução demorasse muito para passar.

Ouviu passos atrás de si, eram bem sutis a princípio, virou-se para trás e não viu absolutamente ninguém, meio ressabiada continuou seu caminho, mas com a audição em alerta. Ao passar por baixo de uma árvore escutou novamente os passos, continuou a andar e virou-se tão repentinamente para trás que não deu tempo da outra pessoa esconder-se. Ela viu horrorizada que um homem enorme e todo vestido de preto a fitava, pior era saber que não havia nenhuma esquina próxima para dobrar, nenhum bar aberto, aquela rua era de casas antigas e ela sem pensar duas vezes apertou várias campainhas. Ninguém saiu para acudi-la, ninguém abriu a porta ou sensibilizaram-se quando ela começou a gritar e correr. Ela correu muito, muito mesmo, correu o quanto pode e por fim tirou os sapatos para poder correr mais rápido. O peso da bolsa atrapalhava um pouco e o casaco não a deixava correr, então, sem pensar duas vezes ela arrancou o casaco e deixando-o cair no chão prosseguiu."